Os “fantasmas” estão assombrando os cofres públicos
do município de Aurora do Pará. Eles recebem entre R$ 541 e R$ 8 mil por mês,
onerando a folha de pagamento da prefeitura em R$ 69 mil a cada trinta dias, ou
R$ 2,4 milhões nos últimos três anos. Além disso, o nepotismo – emprego de
parentes na máquina pública- favorece pessoas ligadas ao prefeito Márcio
Ricardo Borges da Silva (PR) e seus auxiliares diretos.
O esquema se alimenta de verbas desviadas do Fundo de
Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos
Profissionais da Educação (Fundeb), cujo montante alcançaria mais de R$ 3
milhões, segundo denúncias de vereadores, e seria liderado pelo próprio
prefeito.
Ofícios com as ordens de pagamento emitidas para o
Banco do Brasil de Mãe do Rio, município vizinho a Aurora do Pará, trazem as
assinaturas do prefeito e do tesoureiro da prefeitura, Fernando Teixeira, de
acordo com as denúncias dos vereadores. A corrupção corre tão frouxa que até um
morto há cinco anos, o aposentado João Monteiro de Lima, de 70 anos, foi
abrigado na folha de pagamento. A família de Lima descobriu a maracutaia e a
denunciou.
Um dossiê contendo as irregularidades foi
encaminhado pelos vereadores à Controladoria Geral da União (CGU), Ministério
Público Estadual (MPE) e Polícia Federal (PF). O Sindicato dos Trabalhadores em
Educação Pública (Sintepp) também denunciou o caso ao Tribunal de Contas dos
Municípios (TCM) e ao Ministério Público Federal (MPF), que abriu investigação
por intermédio do procurador da República, Daniel Azeredo Avelino.
O prefeito foi afastado do cargo em novembro do ano
passado, por decisão da Câmara Municipal, mas retornou por ordem do juiz da
comarca, José Leonardo Frota Vasconcelos. Ao sair, o prefeito instruiu seus
auxiliares para que levassem computadores e documentos que pudessem
incriminá-lo. O vice-prefeito, Evan Albuquerque (PT), mal conseguiu sentar na
cadeira do titular, ficando apenas quinze dias no cargo.
Ainda assim, tempo suficiente para descobrir o
festival de falcatruas que domina a prefeitura. Evan tomou providências para
que tudo fosse apurado. Mas sofreu literalmente na pele a represália dos
aliados do prefeito: saiu do gabinete escorraçado por pessoas que tinham nas
mãos pedaços de madeira e barras de ferro.
DOSSIÊ
O DIÁRIO teve acesso a uma cópia do dossiê,
entregue pelos vereadores Aldecir Euclides de França, presidente da Câmara
Municipal de Aurora do Pará, Euclênio Arruda de Souza, José Antonio da Silva
Araújo, o Antonio do 16, e Antonio Bezerra da Silva, o Antonio do Táxi. O Banco
do Brasil forneceu à comissão processante da Câmara Municipal uma cópia com os
nomes de salários de todos os servidores do município. As irregularidades
atingem 31 pessoas. Entre elas, quinze nunca trabalharam na prefeitura. Outras, que ganhavam salário mínimo,
passaram a receber até dez vezes mais. Um caso inusitado de superfaturamento
salarial.
“Uma auditoria deve descobrir coisas iguais ou
piores do que essas”, declarou o vereador Aldecir França, para quem o município
vive tempos de angústia e penúria. “Não há compromisso com a população, a saúde
e a educação são os setores que mais sofrem. O povo está revoltado”,
acrescentou França. Para ele, as irregularidades descobertas exigem
providências das autoridades competentes.
Segundo França, o dinheiro caía na conta dos
servidores “fantasmas”, mas ele tem certeza de que nenhuma delas era
beneficiada com os valores depositados. “A cúpula do prefeito é que é a grande
beneficiada com esses desvios de dinheiro público”, resume o presidente da
Câmara. Depois de lamentar os prejuízos causados à população pela gestão de
Márcio Borges da Silva, o vereador desabafa: “sinto vergonha de ver o município
nessa situação”. O retorno do prefeito ao cargo, apesar de tantas denúncias,
para França significou a “vitória da impunidade”.
O vereador Toninho da 16 lamentou o estado em que
se encontra a saúde no município. O abandono nos postos de atendimento à
população é total. Não há remédios sequer para os hipertensos. Os recursos para
atendimento de média e alta complexidade hospital não está sendo aplicados. Um
hospital particular que foi arrendação pelo município para atender a população
não está funcionando como deveria. O atendimento é precário.
No caso dos supersalários e dos pagamentos a
“fantasmas”, Toninho disse que há absurdos. “Um taxista que nunca prestou
serviços à prefeitura recebe R$ 5 mil por mês, assim como uma senhora de 74
anos cujo nome aparece na folha com salário superior a R$ 4 mil”, criticou. Ele
comparou a situação em Aurora com a de municípios como Ipixuna e Mãe do Rio,
afirmando que nesses dois, apesar das carências, se encontram em situação muito
melhor. “Aurora até regrediu, está andando para trás, na atual gestão”,
fulminou Toni.
Fonte: diáriodopará.com.br
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